Enquanto o Cessar-Fogo em Gaza se Consolida, Vaticano Busca Restaurar Relações com Líderes Judeus

VATICANO (RNS) — Enquanto Israel e Hamas assinaram um acordo de cessar-fogo do qual se espera que a tão aguardada paz finalmente chegue à região assolada, a Igreja Católica enfrenta o desafio de restabelecer a confiança enfraquecida com a comunidade judaica.

Apesar da intenção do Papa Leo XIV de reacender a relação, há muito apagada, entre as fés judaica e católica, um incidente recente demonstra que questões e mal-entendidos ainda persistem.

O episódio mais recente envolveu o braço direito de Leo, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, que, em entrevista ao jornal vaticano l’Osservatore Romano, publicada em 7 de outubro para marcar o aniversário do ataque do Hamas que desencadeou a guerra, criticou a retaliação de Israel em Gaza, chamando-a de “massacre.”

Ao afirmar que o ataque do Hamas — que ceifou a vida de cerca de 1.200 pessoas em Israel e fez 251 reféns — foi “desumano e indefensável”, Parolin ressaltou que “mesmo uma defesa legítima deve respeitar o princípio da proporcionalidade.” Segundo ele, “é inaceitável e injustificável reduzir os seres humanos a meros ‘danos colaterais’.” O cardeal ainda elogiou os manifestantes que se posicionaram contra a guerra em Gaza e clamou pelo fim da “cadeia de ódio,” condenando a discriminação tanto contra judeus quanto contra palestinos.

Em novembro passado, Parolin já havia sido alvo de críticas por comentários semelhantes sobre o conflito, quando 400 líderes judeus haviam escrito ao então Papa Francisco solicitando uma condenação mais clara do Hamas.

As declarações mais recentes do cardeal também foram recebidas com resistência por líderes e instituições judaicas, incluindo a Embaixada de Israel junto à Santa Sé. Em nota, autoridades israelenses criticaram Parolin por utilizar o termo “massacre” para descrever tanto o ataque de 7 de outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas, quanto a ação militar israelense em Gaza.

“Não há equivalência moral entre um estado democrático que protege seus cidadãos e uma organização terrorista com a intenção de eliminá-los”, afirmava a nota, acrescentando que “esperamos que futuras declarações reflitam essa importante distinção.”

De acordo com a embaixada, as palavras do cardeal “podiam minar os esforços para pôr fim à guerra em Gaza e combater o crescente antissemitismo” ao focar sua crítica em Israel, em vez de direcioná-la aos terroristas do Hamas.

“É hora de entrarmos em um período pós-Guerra de Gaza, no qual também devemos discutir como a escolha de palavras em declarações sobre Israel, por vezes, tem sido perturbadora”, afirmou o Rabino Noam Marans, diretor de assuntos inter-religiosos do American Jewish Committee.

Questionado por jornalistas nesta quarta-feira (8 de outubro) sobre os comentários de Parolin, o Papa Leo respondeu em apoio ao cardeal. “O Cardeal Parolin expressou muito bem a posição da Santa Sé”, declarou, sem se aprofundar mais na questão.

O Papa Leo XIV transmitia sua mensagem enquanto presidia uma vigília de rosário pela paz na Praça de São Pedro, durante o 63º aniversário do início do Concílio Vaticano II, realizado no Vaticano, em 11 de outubro de 2025.

Parolin também esclareceu que seus comentários tinham o intuito de ser “um chamado à paz” e que não acredita haver equivalência moral entre as duas situações. Em entrevista na última sexta-feira, ele descreveu o acordo de cessar-fogo, patrocinado pelos Estados Unidos, como “a parte mais difícil, porque o diabo está nos detalhes.”


Leo herdou um estado complicado das relações entre católicos e judeus, legado de seu antecessor, Papa Francisco. Durante o pontificado de Francisco, em 2015, a Santa Sé estabeleceu relações formais com a Palestina. Em 2024, o presépio do Vaticano apresentou o bebê Jesus envolto no tradicional lenço preto e branco palestino, o kaffiyeh, e o papa questionou se a comunidade internacional deveria investigar se Israel estaria cometendo genocídio em Gaza.

O Papa Francisco dividiu a diplomacia vaticana em dois canais: um oficial, administrado pelos escritórios da Santa Sé para relações exteriores, liderados por Parolin e pelo Arcebispo Paul Gallagher, e um informal, que incluía importantes prelados e o movimento leigo católico São Egídio, focado em serviços sociais.

Resta saber como Leo abordará essa dualidade na diplomacia da Santa Sé. De 26 a 28 de outubro, o Vaticano sediará uma importante cúpula organizada por São Egídio, intitulada “Paz Sem Medo”. O evento contará com a participação de rabinos europeus, do xeique Ahmed al-Tayeb, grão-imame de Al-Azhar, e de centenas de representantes religiosos de 35 países, com a expectativa da presença de Leo ao lado do presidente italiano, Sergio Mattarella.

Em uma carta enviada ao American Jewish Committee, assinada no dia de sua inauguração como papa, em 8 de maio, Leo se comprometeu a fortalecer o diálogo entre judeus e católicos. Na mesma data, enviou uma carta ao principal rabino de Roma, Riccardo Di Segni, reafirmando seu compromisso de continuar e intensificar o diálogo e a cooperação entre a igreja e o povo judeu.

O papa comentou que “a relação com a comunidade judaica já melhorou um pouco” durante seu breve pontificado e que já houve “um pequeno rapproachement”, conforme declarou à jornalista do Vaticano Elise Allen, do Crux, no mês passado. Ele destacou a importância de “fazer algumas distinções” entre a comunidade judaica e o governo de Israel, ressaltando, contudo, que “as raízes do nosso cristianismo estão na religião judaica.”

“Há muito a dizer e muito a fazer”, concluiu.

No entanto, Marans criticou o esforço de Leo em separar a comunidade judaica do estado de Israel. “Apreciamos o espírito positivo que o Papa Leo reenergizou nas relações católico-judaicas”, declarou o rabino em entrevista telefônica ao Religion News Service. “Mas agora, após a libertação dos reféns e, possivelmente, com o início de um movimento pela paz, é fundamental que ocorra um diálogo sério e franco entre as lideranças judaica e vaticana sobre a centralidade do estado de Israel para a identidade judaica no século XXI.”

Marans ressaltou que o 60º aniversário do documento “Nostra Aetate” — que estabeleceu o diálogo católico-judaico e repudiou o antissemitismo — representa uma oportunidade para abordar as tensões remanescentes. “Existem questões, mas estamos dialogando — e isso é uma transformação da história”, afirmou.


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