Da Escravidão ao Pecado: Por que Lutamos para Fazer o que Sabemos ser Certo
Nas últimas páginas de seu livro A Abolição do Homem, C. S. Lewis reúne ensinamentos de diversas religiões do mundo para destacar o quase universal consenso sobre quais comportamentos são encorajados e quais devem ser evitados.
Por exemplo, praticamente todas as tradições se opõem à mentira. Ensinaram que não devemos quebrar nossas promessas, roubar ou assassinar uns aos outros. Ao invés disso, afirmam que devemos respeitar uns aos outros, buscar justiça e equidade e ser generosos com nossas posses. Em suma, é esperado que vivamos de acordo com a Regra de Ouro — tratar todos como gostaríamos de ser tratados.
Todas as religiões mencionadas por Lewis defendem que esse é o modo de viver ideal e também atribuem a principal causa do sofrimento no mundo ao fato de não vivermos dessa maneira.
Isso levanta a seguinte questão: O que existe na condição humana que torna possível — ou até inevitável — que, mesmo sabendo exatamente como deveríamos viver e das consequências de não fazê-lo, fracassamos repetidamente em seguir esse padrão?
Sabemos o que Devemos Fazer. Então, por que Não o Fazemos?
Independentemente de quem seja nosso terapeuta, qual filosofia defendamos ou do formato do nosso governo, continuamos falhando em fazer o que é certo, em viver da maneira adequada. Sabemos o que deveríamos fazer, mas não o fazemos. Como explicar essa contradição?
A explicação bíblica aponta que os corações humanos são pecaminosos. Mais do que isso, a Bíblia ensina que nos tornamos escravos do pecado. Ela afirma que o pecado não é apenas uma ação, mas um poder — e cada ato pecaminoso tem um efeito destrutivo sobre a faculdade que o cometeu. Por exemplo, pecar com a mente atrofia a racionalidade; pecar com o coração, corrói as emoções; e pecar com a vontade, dissolve a força de vontade e o autocontrole.
O pecado é uma ação autodestrutiva que prejudica o próprio ser. Em qualquer forma que se manifeste, ele destrói nossa liberdade e nos escraviza. Um exemplo disso pode ser visto no episódio dos filhos de Israel em Números 11. Após terem sido libertados da escravidão, sua atitude foi: “Nós tivemos um tempo maravilhoso no Egito. Vamos voltar.”

Repetidas vezes, os filhos de Israel ansiavam pelo conforto da civilização egípcia, desejando regressar mesmo sabendo que tal retorno os traria de volta à escravidão social, política e econômica — ou até mesmo à aniquilação. Hoje, qualquer leitor pode se surpreender: “Que tolos! Como podem desejar algo tão simples, como peixe, a ponto de se submeterem novamente à escravidão? Quem se submeteria a castigos e violência por causa de cebolas e alho?” Para muitos, o mais sensato seria aceitar o maná, por mais insosso que seja, e seguir em direção à terra prometida.
O que precisa ser feito é claro, mas os israelitas não conseguem realizar. Eles se recusam, ou simplesmente não conseguem. Por quê? Porque continuam sendo escravos — não na mesma forma do Egito, mas como escravos espirituais.
Todo Ser Humano é Escravo do Pecado
Ser escravo, seja do ponto de vista político ou econômico, significa não ter o poder de agir no que é melhor para si. Por exemplo, você pode saber que seu verdadeiro dom não é a construção, mas a dança. Contudo, se você está preso a uma condição que limita o uso dos seus talentos de forma plena, permanece impedido de alcançar todo o seu potencial. Os filhos de Israel conseguiram se livrar desse tipo de escravidão, mas continuaram sujeitos a uma forma insidiosa de servidão: eram impotentes espiritualmente, incapazes de fazer o que era verdadeiramente benéfico para si mesmos.
A Bíblia afirma que todo ser humano na Terra vive, de certa forma, como um escravo espiritual. Paulo exemplifica essa realidade em suas cartas, explicando que, mesmo tendo o desejo de fazer o bem, ele se vê continuamente dominado pelo mal, como se este estivesse sempre ali, interferindo em suas ações. Segundo ele, “sabemos que a lei é espiritual; mas eu sou corpóreo, vendido como escravo do pecado.” Assim, quanto mais se esforça para alcançar o bem, mais percebe sua própria impotência.
Sim, Até Você
Alguns podem ler isso e pensar: “Isso é um exagero, ou pelo menos não se aplica a mim. Não sou como Paulo; nunca me senti incapaz de fazer o que é certo.” No entanto, o que Paulo revela é que, quanto maior o esforço para viver de maneira virtuosa, mais evidente se torna a escravidão espiritual, mostrando que, sem consciência dessa servidão, nossa ambição moral tende a ser demasiado limitada.
Por exemplo, a maioria das pessoas concorda com a Regra de Ouro. Mas, se você acredita que não tem dificuldade em viver conforme esse princípio, proponha a si mesmo um desafio: experimente praticá-lo por apenas doze horas. Por um único dia, dedique-se a tratar os outros exatamente como gostaria de ser tratado, atendendo às necessidades alheias com a mesma energia, alegria, criatividade e rapidez com que cuida das suas próprias demandas.
Em poucas horas — ou até mesmo minutos — você poderá perceber que, quanto mais se esforça para fazer o bem, mais se depara com a própria impotência interior. E, nesse momento, será possível reconhecer o sentimento de desamparo, similar àquele expresso por Paulo, questionando: “Que miserável sou! Quem me resgatará desse corpo de morte?”
Somos, de fato, escravos espirituais. Vemos claramente o que deve ser feito, mas muitas vezes não conseguimos agir de acordo. E qualquer pessoa que ache o contrário provavelmente ainda não se desafiou de verdade.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.

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