Igrejas precisam resistir à polarização como caminho para reduzir a violência
Estamos cercados pela violência na América. Ela aparece nas notícias, nos videogames, nos filmes, nos esportes, nas redes sociais, na política, nas ruas, nas escolas, na nossa retórica e em nossos pensamentos.
O assassinato de Charlie Kirk é apenas o mais recente exemplo de como a violência permeia nosso país. Precisamos encontrar uma forma de quebrar esse ciclo cultural, e as igrejas devem liderar esse caminho.
A violência domina a indústria do entretenimento porque vende. Desde que Hollywood criou os filmes de faroeste, temos pago para ver o herói matar os vilões. Muitas vezes, o herói – com ou sem distintivo – transgride a lei em nome da “justiça”. Por que passar por um julgamento? Deixe o policial decidir o destino do vilão. “Faça o meu dia”. Em filmes de justiça vigilante, como “Desejo de Morte”, o público vibra quando o vilão é eliminado.
A vingança violenta é apresentada como justificada. Quando o sistema de justiça falha, a vítima assume a lei com as próprias mãos e executa o agressor. Mas a vingança não equilibra as contas, apenas gera ainda mais violência.
Cenas violentas nos filmes são coreografadas com a precisão de uma dança complexa. Muitas vezes, ficamos mais preocupados com uma criança vendo um seio à mostra em um filme do que com um cadáver ensanguentado.
Nos videogames, temos a chance de agir impunemente conforme nossas tendências violentas. Nas redes sociais, nossas palavras inflamadas acabam alimentando um ciclo de raiva e ódio contra aqueles com quem discordamos. Consumimos e emitimos discursos acalorados, sendo aprovados por quem compartilha das mesmas opiniões.
A violência se tornou a maneira de resolver problemas políticos. Se há um terrorista, mate-o junto com seus comparsas. Se há inimigos, bombardeie-os. Se há um contrabandista de drogas, destrua-o e sua embarcação. Se há um adversário político, elimine-o. Se um país nos opõe, corte seu acesso a alimentos e medicamentos, mesmo que civis inocentes paguem o preço.
Raiva nas estradas. Violência doméstica. Confrontos entre gangues. Intimidações nas escolas. Brigas após eventos esportivos. A violência está em toda parte.
Tiroteios em escolas são tão comuns que a mídia já dispõe de um manual para cobri-los.
Em uma escola de área interna, a cobertura de um tiroteio é mínima. Se o incidente acontece em um subúrbio predominantemente branco, a cobertura se torna minuciosa – envolvendo a resposta policial, o histórico e as motivações do atirador, o choque dos envolvidos, o sofrimento das famílias, seguido de entrevistas com especialistas e políticos, e, por fim, a cobertura do funeral.
Após alguns dias, passamos para a próxima notícia, deixando para trás famílias desestruturadas, sobreviventes feridos e crianças com transtorno pós-traumático.

Uma criança é abraçada enquanto as pessoas visitam um memorial improvisado em 29 de agosto de 2025, na Igreja Católica da Anunciação em Minneapolis, após o tiroteio ocorrido em 27 de agosto durante uma missa frequentada por estudantes da escola associada. (AP Photo/Bruce Kluckhohn)
A violência se normalizou a tal ponto que a consideramos algo esperado. Não nos surpreendemos com ela, mas cada morte em nossas cidades representa não apenas uma estatística, mas uma tragédia pessoal e familiar.
Nossos fundadores chamaram os Estados Unidos de um experimento ao compreender que a paixão poderia dominar a razão, o sectarismo poderia enfraquecer a unidade, o individualismo poderia minar o bem comum e a violência poderia desorganizar a comunidade.
Como quebrar o ciclo?
Para alguns, a solução seria retornar ao Velho Oeste, onde todos portam armas para se defender e inibir a criminalidade. Essa já é a realidade em bairros dominados por gangues – uma estratégia que não diminui as mortes, mas as aumenta, pois as pessoas simplesmente adquirem armas mais potentes para superar seus inimigos.
Não há soluções rápidas. É necessária a intervenção humana em milhares de bairros e contextos. Precisamos de pessoas de confiança nas comunidades, treinadas para diminuir os conflitos, que possam intervir, incentivar uma pausa, ajudar a respirar fundo e encontrar maneiras de resolver disputas sem recorrer à violência.
Devemos aprender a conversar e ouvir, e não apenas gritar e berrar. É vital ter espaços seguros onde as pessoas possam se reunir para dialogar e construir argumentos fundamentados.
As escolas devem compreender que seu papel abrange não somente a transmissão de conhecimento, mas também o ensino de habilidades como o ouvir e o dialogar com respeito. Professores precisam ser exemplo de paciência e respeito, enquanto as universidades devem permitir que todos os pontos de vista sejam expressos e debatidos.
Ninguém tem todas as respostas ou a verdade completa. A maioria não deve oprimir a minoria, nem a minoria deve intimidar a maioria.
As igrejas desempenham um papel essencial no combate à violência na América, começando por enfatizar o mandamento de Jesus de amar os inimigos. Os pregadores devem deixar de invocar condenações aos que discordam e, em vez disso, reconhecer que todos são nossos irmãos e irmãs, investidos da dignidade humana como filhos de Deus.
As igrejas também precisam aprender a resolver suas disputas internas por meio do diálogo. Devemos demonstrar que somos cristãos pelo amor, e não pelas brigas. Embora muitas igrejas estejam divididas entre “vermelhas” e “azuis”, é fundamental promover um diálogo ecumênico que transcenda questões doutrinárias e discuta o futuro do país.
É imperativo que as igrejas ofereçam espaços seguros para debater temas delicados em um mundo polarizado. Elas devem mostrar que liberais e conservadores podem discordar respeitosamente e, ainda assim, se amar.
Deus não é vermelho nem azul. Deus é púrpura.
“Acredito firmemente que jamais podemos perder a esperança”, afirmou o Papa Leão XIV em uma entrevista. “Tenho grandes esperanças na natureza humana. Existe o lado negativo; há maus atores, há tentações. Em qualquer posição, encontramos motivações positivas e outras nem tanto. Entretanto, encorajar as pessoas a buscar valores superiores, os valores reais, faz toda a diferença. Você pode ter esperança, e deve continuar tentando persuadir as pessoas a pensar de forma diferente.”
Leão vê a sinodalidade, proposta pelo Papa Francisco, como “uma espécie de antídoto contra a polarização”. Ele a descreveu como “uma atitude, uma abertura, uma disposição para compreender”. Se a igreja se tornar mais sinodal, poderá servir de exemplo de escuta e cooperação para o mundo, ajudando a pôr fim ao ciclo da violência.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.


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