O líder espiritual dos cristãos ortodoxos orientais, falando na sexta-feira diante de uma plateia em Nova York, defendeu sua decisão de 2019 de reconhecer uma igreja independente na Ucrânia e denunciou a Igreja Ortodoxa Russa por fornecer um “aprovamento retumbante” à invasão da Ucrânia.

O Patriarca Ecumênico Bartolomeu de Constantinopla fez os comentários durante um encontro no Conselho de Relações Exteriores, em uma parada em sua visita de 12 dias aos Estados Unidos, que também incluiu reuniões com o presidente e outros líderes políticos.

Bartolomeu tem sido crítico há muito tempo da Igreja Ortodoxa Russa e de seu apoio total à invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em 2022.

Na sexta-feira, ele reiterou essas críticas, afirmando que a igreja russa apoiou o “assassinato de irmãos cristãos ortodoxos pelo regime de Putin”. Lembrando que tanto a Rússia quanto a Ucrânia são países de maioria ortodoxa, suas palavras ganharam ainda mais peso.

Mesmo antes da invasão, em 2018, a Igreja Ortodoxa Russa já havia declarado que existia uma ruptura na comunhão entre ela e Constantinopla. Esse episódio ocorreu enquanto Bartolomeu se preparava para reconhecer, no ano seguinte, a Igreja Ortodoxa da Ucrânia como independente. Enquanto a igreja de Moscou afirma que a Ucrânia integra seu território eclesiástico, Bartolomeu defende sua autoridade para reconhecer uma igreja autônoma.

Na mesma ocasião, o patriarca afirmou que a igreja de Moscou contrariou o ensino ortodoxo ao promover uma ideologia de “mundo russo”, que apresenta a Rússia como protetora espiritual de um território mais amplo, incluindo a Ucrânia.

O Patriarca Kirill de Moscou defendeu a guerra, alegando que os mortos em combate têm seus pecados perdoados, e presidiu um conselho que classificou a invasão como uma “guerra santa” contra um mundo ocidental, que ele considera “afundado no satanismo”.

Bartolomeu ressaltou que os ucranianos “não estão mais sujeitos a uma igreja que se comprometeu” e que agora desfrutam da liberdade de consciência que sempre desejaram.

Entretanto, a igreja russa reconhece apenas a legitimidade da Igreja Ortodoxa Ucraniana, historicamente sob a autoridade de Moscou. Mesmo tendo tentado distanciar-se de Moscou devido ao apoio deste à invasão, as autoridades ucranianas não estão convencidas de que a ruptura seja completa e estão buscando bani-la.

No seu discurso abrangente, Bartolomeu também conclamou a comunidade internacional a trabalhar em prol da paz no conflito em curso entre Israel e Hamas, além de outras disputas. Ele criticou o crescimento do extremismo online e da violência política, elogiou o sistema constitucional norte-americano de pesos e contrapesos e defendeu que a fé não seja excluída do debate público, citando George Washington, que afirmara que “religião e moralidade são indispensáveis” para um governo eficaz.

Embora seja considerado primeiro entre iguais entre os patriarcas ortodoxos, Bartolomeu não detém o poder de um papa católico. Cada jurisdição ortodoxa, em sua maioria organizada segundo linhas nacionais, mantém sua autonomia, mesmo compartilhando credos e sacramentos.

Baseado na antiga capital bizantina, hoje conhecida como Istambul, Bartolomeu lidera um pequeno grupo de fiéis ortodoxos em uma Turquia predominantemente muçulmana, além de supervisionar jurisdições no exterior, como a Arquidiocese Ortodoxa Grega da América.

Em contraste, Kirill comanda a maior jurisdição ortodoxa oriental do mundo, abrangendo aproximadamente 100 milhões de pessoas somente na Rússia, de acordo com uma pesquisa global de 2017. A igreja de Moscou também reivindica autoridade sobre diversas congregações em outros países, inclusive nos Estados Unidos.

Tanto Kirill quanto os líderes políticos russos justificaram a invasão, em parte, ao considerar a Ucrânia como pertencente ao “mundo russo” e ao evocar antigas reivindicações da igreja contra o suposto “invasão ocidental”. O presidente Vladimir Putin já foi acusado de crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional.

Bartolomeu está programado para receber o prestigiado Prêmio Templeton em 24 de setembro, em Nova York, em reconhecimento ao seu trabalho franco em defesa do meio ambiente global.


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