Presidente egípcio diz que proposta de Trump para o Oriente Médio é “última chance” para a paz na região

Sharm el-Sheikh, Egito (AP) — O presidente egípcio afirmou, durante uma cúpula de líderes mundiais realizada nesta segunda-feira, que a proposta do presidente dos EUA, Donald Trump, para o Oriente Médio representa a “última chance” para a paz na região. Em seu discurso, o presidente reafirmou o direito dos palestinos à criação de um Estado independente e defendeu a solução de dois Estados.

A cúpula, realizada na cidade resort de Sharm el-Sheikh, no Mar Vermelho, teve como objetivo apoiar o cessar-fogo estabelecido em Gaza, pôr fim à guerra entre Israel e o Hamas e delinear uma visão de longo prazo para governar e reconstruir o território palestino devastado.

O encontro parecia destinado a reunir apoio internacional para a visão de Trump de encerrar o conflito. O líder egípcio Abdel Fattah el-Sissi, co-presidente da cúpula, afirmou que “somente você” – referindo-se a Trump – pode trazer a paz para a região.

Embora o plano de Trump ofereça a possibilidade de um Estado palestino, essa criação ocorreria somente após um período prolongado de transição em Gaza e um processo de reformas conduzido pela Autoridade Palestina, reconhecida internacionalmente. O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu se opõe à independência dos palestinos, e Trump não mencionou explicitamente uma solução de dois Estados durante o encontro.

Em seu discurso à cúpula, Trump convocou o início de uma nova era de harmonia no Oriente Médio, afirmando que a região tem “uma chance única na vida para deixar para trás antigas disputas e rancores”. Ele incentivou os líderes a declarar que o futuro não será ditado pelos conflitos de gerações passadas.

Pressionados pelos Estados Unidos, países árabes e Turquia, Israel e o Hamas buscaram acordar a primeira fase do cessar-fogo negociado no Catar, que teve início na última sexta-feira. Na segunda-feira, Trump, el-Sissi, o emir do Catar e o presidente turco assinaram um documento que, segundo Trump, estabelecia “um conjunto de regras e regulamentos” abrangente, embora o conteúdo não tenha sido divulgado publicamente nem compartilhado com os jornalistas presentes.

A cúpula ocorreu logo após o Hamas liberar os 20 reféns israelenses restantes e Israel começar a libertar centenas de palestinos de suas prisões, medida crucial para a efetivação do cessar-fogo. Entretanto, persistem dúvidas quanto aos próximos passos, elevando o risco de um retorno ao conflito.

Mais de 20 líderes mundiais participaram do encontro, entre eles o rei Abdullah da Jordânia, o presidente francês e o primeiro-ministro britânico. Um funcionário turco informou que o país ganhou tempo ao lançar “uma iniciativa diplomática” para evitar a presença do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, o que acabou levando à decisão de Netanyahu de não comparecer. Outros relatos sugeriam que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan teria ameaçado boicotar o encontro, com seu avião sobrevoando o Mar Vermelho, mas tais informações não foram confirmadas oficialmente.

Anteriormente, o primeiro-ministro iraquiano Mohammed Shia al-Sudani havia advertido os representantes do Egito e dos EUA que se retiraria da cúpula caso Netanyahu comparecesse, e o primeiro-ministro israelense acabou justificando sua ausência alegando a observância de um feriado judaico.

Israel mantém sua rejeição em conceder qualquer papel à Autoridade Palestina — liderada por Mahmoud Abbas — na administração de Gaza.

Uma nova era para a paz e estabilidade regional

De acordo com o escritório de el-Sissi, o objetivo do encontro era “encerrar a guerra” em Gaza e “inaugurar uma nova era de paz e estabilidade regional”, alinhando-se à visão de Trump. Com duração de cerca de três horas e de caráter em grande parte cerimonial, a cúpula não aprofundou os temas controversos. Durante o evento, os líderes mundiais se alinharam para fotos com Trump, que sorria e fazia sinal de positivo, antes de ser convidado por el-Sissi ao palco para se juntar aos que “amam a paz”.

Antes de sua chegada ao Egito, vindos de Israel, os aviões da Força Aérea Egípcia acompanharam o Air Force One em um sobrevoo pelo resort.

O ministro das Relações Exteriores do Egito, Badr Abdelatty, comentou que o sucesso da visão de Trump para a paz no Oriente Médio dependerá de seu comprometimento contínuo com o processo, o que inclui a pressão sobre as partes envolvidas e a implantação de forças militares como parte de um contingente internacional que deverá realizar missões de manutenção da paz na próxima fase. Sob a primeira fase do acordo, tropas israelenses recuaram de certas áreas de Gaza, permitindo que centenas de milhares de palestinos retornassem para suas casas, e organizações humanitárias já se preparam para levar grandes quantidades de ajuda ao território, que esteve bloqueado por meses.

Em declarações separadas, o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif elogiou os esforços de Trump para promover a paz em diferentes partes do mundo, mencionando inclusive sua indicação para o Prêmio Nobel da Paz pelo papel na redução das tensões entre Índia e Paquistão.

Desafios críticos pela frente

A próxima fase do acordo deverá enfrentar desafios como a desmobilização do Hamas, a criação de um governo pós-guerra para Gaza e a definição da extensão da retirada de Israel do território. O plano de Trump prevê ainda a colaboração de parceiros regionais e internacionais para desenvolver o núcleo de uma nova força de segurança palestina.

Abdelatty ressaltou que a força internacional precisará de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU para validar sua implantação. Durante o período de transição em Gaza, o Hamas não terá qualquer papel; um comitê de 15 tecnocratas palestinos, sem afiliações com facções políticas e previamente aprovado por Israel, ficará responsável pela gestão cotidiana do território. Esse comitê deverá contar, ainda, com o apoio e a supervisão de um “Conselho de Paz”, proposto por Trump, para acompanhar a implementação das diversas fases do plano.

Outro grande desafio poderá ser o financiamento para a reconstrução de Gaza, com custos estimados em US$ 53 bilhões, segundo o Banco Mundial e o plano pós-conflito do Egito. O Egito planeja sediar uma conferência de recuperação e reconstrução para Gaza em novembro.

Papéis de outros países

A Turquia, que por anos recebeu líderes políticos do Hamas, teve papel fundamental na viabilização do acordo de cessar-fogo. Ao lado do Egito, a Jordânia ficará responsável pelo treinamento da nova força de segurança palestina.

A Alemanha, um dos principais apoiadores internacionais de Israel e grande fornecedora de equipamentos militares, teve representação do chanceler Friedrich Merz, que expressou preocupação com a condução do conflito por parte de Israel e com o seu plano de intervenção militar em Gaza. Já o primeiro-ministro britânico Keir Starmer comprometeu-se a destinar 20 milhões de libras esterlinas para auxiliar no fornecimento de água e saneamento em Gaza, além de sediar uma conferência de três dias para discutir sua reconstrução e recuperação.

Por sua vez, o Irã, principal apoiador do Hamas, optou por não participar do encontro. Em meio a um dos seus momentos mais frágeis desde a Revolução de 1979, autoridades iranianas interpretaram o acordo de cessar-fogo como uma vitória para o Hamas, mesmo quando o acordo evidenciou a influência reduzida do país na região e renovou os temores de um possível novo conflito com Israel, especialmente após o confronto de 12 dias entre os dois países em junho.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *