A revolução fiscal da Grécia impulsiona o uso de big data e drones para deixar para trás um legado de crise
ATHENS, Grécia (AP) — Com uma fachada branca impecável, a nova sede da autoridade fiscal grega se destaca em meio a uma artéria industrial congestionada nos arredores de Atenas. O edifício – que já foi um shopping e uma pista de patinação – foi transformado em um centro digital ultramoderno e tem sido crucial para a recuperação do setor financeiro e fiscal do país.
Dentro deste moderno complexo, inspetores utilizam drones, big data e monitoramento em tempo real para identificar e combater fraudes fiscais. Analistas da Autoridade Independente para Receita Pública acompanham, em tempo real, milhões de transações e iniciam operações contra empresas sinalizadas por algoritmos que detectam um alto potencial de atividades ilegais. Essa transformação tecnológica ficou em plena exibição durante uma visita recente, quando a AP teve acesso exclusivo à sede da autoridade.
O sistema fiscal, outrora sinônimo de ineficiência, foi radicalmente transformado pela tecnologia. Hoje, um país que passou quase uma década como pária financeiro da Europa, afogado em dívidas, destaca-se por um desempenho orçamentário exemplar, com títulos recuperados ao grau de investimento por todas as principais agências de classificação de risco.
“Trabalhamos sistematicamente ao longo dos anos, com dedicação. Partimos de uma situação sem dados para uma realidade de big data”, afirmou Giorgos Pitsilis, governador da autoridade fiscal.
De crise para upgrades de crédito
A Grécia foi um dos seis únicos Estados-membros da União Europeia a registrar superávit orçamentário em 2024, após décadas de déficits. Esse ímpeto se manteve neste ano, com as receitas governamentais ultrapassando as metas estabelecidas até agosto.
A Moody’s elevou os títulos gregos ao grau de investimento em março, elogiando o amplo esforço de digitalização do sistema fiscal. Jason Graffam, vice-presidente sênior da agência Morningstar DBRS, observou que os custos de financiamento de longo prazo agora ficam um pouco acima dos da Espanha – e abaixo dos da Itália e da França.
“A Grécia de hoje é realmente muito diferente da de uma década atrás. Houve uma mudança duradoura no modelo econômico do país e em seu regime fiscal”, ressaltou Graffam.
Durante os anos de crise, credores internacionais impuseram severas medidas de austeridade em troca de três maciços pacotes de resgate. A população sofreu com cortes salariais, fechamento de empresas e a perda maciça de empregos. Sob pressão constante, governos sucessivos foram forçados a modernizar um dos sistemas fiscais mais fracos da Europa.
Os antigos arquivos em papel e as máquinas de fax deram lugar a sistemas digitais – sem papel e sem dinheiro – alimentados por algoritmos que analisam pagamentos com cartão, declarações de impostos, dados de folha de pagamento, declarações aduaneiras e registros bancários, sinalizando quaisquer discrepâncias para ação imediata.
“Saturday Night Fever”
Inspetores em campo utilizam smartphones reaproveitados para transmitir vídeo e áudio em tempo real para a sede, onde telas monitoram inspeções e exibem os feeds dos drones. Esses sinais vêm de locais diversos – de restaurantes e portos a silos de grãos escondidos e caminhões de entrega de frutas – inclusive com leituras ao vivo dos tanques de combustível dos navios.
De acordo com funcionários da Receita e da Alfândega – que optaram por permanecer anônimos por questões de confidencialidade e segurança – os dados coletados se transformam em operações de batida. Durante uma operação recente, apelidada de “Saturday Night Fever”, os inspetores compararam individualmente os pedidos de cada mesa com os recibos emitidos, identificando vendas não declaradas, especialmente de bebidas alcoólicas.
“Sabíamos que as mesas estavam cheias, mas os recibos não batiam”, comentou um oficial, acrescentando que, após a intervenção dos inspetores, as receitas relatadas pela casa noturna dobraram em poucos dias.
A fraude é identificada ao cruzar a atividade dos telefones celulares com as vendas declaradas por meio dos sistemas de pagamento – que, por lei, devem estar conectados à autoridade fiscal. “Se detectarmos sinais de 20 telefones em uma loja, mas houver quase nenhum recibo correspondente, isso é um sinal para despachar uma equipe imediatamente”, explicou outro inspetor.
Alto custo de vida persiste
Embora as reformas tenham restaurado a reputação da Grécia no exterior, internamente o aumento na arrecadação possibilitou o financiamento de 1,6 bilhão de euros em cortes de impostos anunciados recentemente pelo governo de centro-direita.
No entanto, partidos de oposição argumentam que uma cobrança mais eficiente não compensa políticas que aprofundam a desigualdade. Durante a crise, a alíquota do imposto sobre vendas foi elevada para 24% – uma taxa superior à de muitos países da União Europeia – e não foi reduzida desde então, mesmo com outros cortes da era de austeridade ainda vigentes e altos índices de pobreza.
O Partido Comunista Grego, uma força política influente, chegou a qualificar os números orçamentários recentes de “superávit manchado de sangue”, destacando o impacto negativo no poder de compra dos trabalhadores.
Apesar disso, o aumento na arrecadação é considerado vital para um governo atualmente pressionado por escândalos de corrupção e pela crise do custo de vida. Os responsáveis pelo órgão afirmam que a maior conformidade fiscal, ainda que gradual, pode contribuir para a confiança nas instituições públicas.
“É um argumento poderoso – ser responsável com os impostos é benéfico. Arrecadamos mais, o que abre espaço para que a reforma tributária se consolide”, ressalta Pitsilis.
Nas ruas, a mudança também se faz notar. Em um tradicional mercado a céu aberto ao norte de Atenas, o vendedor Makis Panaretos já realiza cerca de 70% de suas transações de forma eletrônica, com todas as vendas sendo automaticamente encaminhadas para a autoridade fiscal.
Integração mais profunda da inteligência artificial
A evolução do sistema fiscal grego demonstra como uma crise pode acelerar reformas estruturais. “A Grécia demonstrou como a digitalização e a independência institucional podem se traduzir em ganhos fiscais reais”, afirmou Alexandros Kentikelenis, professor de economia política na Universidade Bocconi, em Milão.
Para além das tecnologias já implementadas, os inspetores preveem uma integração ainda maior da inteligência artificial nos sistemas da autoridade fiscal até 2026, o que deverá intensificar os resultados positivos. Em seu relatório que acompanhou a elevação da classificação de risco em março, a Moody’s afirmou: “O impulso para modernizar a administração tributária continua, o que respalda nossa expectativa de que o crescimento das receitas fiscais se manterá robusto no médio prazo.”
O ministro das Finanças, Kyriakos Pierrakakis – tecnocrata formado em Harvard e no MIT – aponta que essa transformação é irreversível. Defensor do euro digital, ele vinculou a reforma tributária a planos mais amplos para a digitalização da economia grega.
“Os países mudam quando traçam novos rumos, e essa mudança significa que não ficaremos para trás nem voltaremos ao passado”, afirmou o ministro durante uma coletiva de imprensa.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.


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