Dois anos de guerra no Oriente Médio mudaram a forma como os americanos se sentem em relação a Israel, segundo pesquisas, e como os judeus americanos, em particular, se posicionam quanto à liderança israelense. Essa guerra também alterou a atmosfera nos campi universitários e o relacionamento desses espaços com o governo federal.

É lógico supor que o conflito também teria modificado os sentimentos de judeus, muçulmanos e cristãos americanos uns em relação aos outros. Na realidade, porém, os eventos de 7 de outubro de 2023 e o subsequente conflito em Gaza não afetaram as relações inter-religiosas no país – nem um pouco. E isso não é algo bom.

Os acontecimentos de 7 de outubro e o derramamento de sangue que se seguiu aceleraram uma preocupante tendência que já vinha se consolidando há décadas na esfera inter-religiosa: a formação de alianças entre pessoas de diferentes crenças, baseadas em concordâncias políticas, onde a política se sobrepõe à essência da fé. Esse é o efeito de se transformar a política na nova religião para quase todos nos Estados Unidos.

As discussões que, no passado, giravam em torno de quem deveríamos escolher como parceiro ou amigo e do que dependia o nosso futuro eram, em sua maioria, pautadas por valores religiosos. Esses debates eram embalados pelas noções de bem e mal, e as “respostas certas” eram definidas com base em doutrinas de fé. Atualmente, essas disputas – e a linguagem que as envolve – são impulsionadas predominantemente por ideologias políticas. A religião, muitas vezes, se torna apenas uma nota de rodapé conveniente para aqueles que buscam justificar seu posicionamento político.

De forma direta, para grande parte dos americanos, religião é simplesmente política disfarçada.

Se não fosse por essa sobreposição, as diferenças de fé seriam tratadas como questões distintivas na escolha de parceiros de vida ou na maneira como imaginamos o futuro. Contudo, essas questões passaram a ser predominantemente fruto de divergências políticas e filiação partidária, ao invés de identidades espirituais ou denominações religiosas.

Esse cenário fica evidente pelo fato de que mais de 80% dos casais atualmente casados nos Estados Unidos votam de acordo com o mesmo partido, enquanto uma porcentagem quase equivalente vive em famílias inter-religiosas – uma realidade que fazia muito menos sentido há duas décadas.

Se as questões de fé tivessem o mesmo peso de antes, o embaixador americano em Israel, Mike Huckabee – pastor evangélico – dificilmente se aliaría a líderes do partido sionista religioso, como Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir. Essa aliança se sustenta na força das afinidades políticas, que superam as diferenças de crenças.

No outro lado do espectro político, observam-se alianças similares entre organizações judaicas radicalmente seculares e grupos cristãos, cuja oposição ao sionismo se baseia em sua interpretação do chamado divino. Inclusive, a rejeição ao sionismo levou alguns grupos hassídicos a se alinharem com as facções palestinas mais veementemente anti-Israel.

Em todos esses casos, as concepções de fé dos participantes não apenas divergem, como se tornam, muitas vezes, mutuamente excludentes. Mesmo assim, eles se unem em torno de pautas políticas, sem os habituais embates teológicos. Independentemente do nome que usam para chamar ou compreender Deus, a convicção é de que o Deus invocado compartilha seus objetivos políticos – e, por essa razão, as diferenças religiosas se dissolvem.

Essa situação é prejudicial tanto para a religião quanto para a política, pois retira o valor enriquecedor das relações inter-religiosas genuínas, tão necessárias nos dias de hoje.

Não se trata de negar que qualquer aproximação entre pessoas de tradições diferentes – seja em termos religiosos, políticos ou de outra natureza – possa trazer benefícios. Mas quando essa aproximação acontece apenas para reforçar outra ideologia rígida, nada de verdadeiramente construtivo se consolida. Chega a parecer que, ao celebrarmos relações que ultrapassam fronteiras, acabamos apenas nos congratulando por estarmos certos e por pertencer a um mesmo grupo que acredita ter o respaldo divino.

Não surpreende que a guerra tenha agravado esse cenário. Quando as pessoas se sentem atacadas, costumam reagir de três formas: lutar, fugir ou congelar. O confronto é evidente – mas ainda não se resolve de fato. O isolamento em bolhas ideológicas também se torna cada vez mais palpável, assim como a estagnação: a capacidade de criar vínculos depende menos do consenso e mais do reconhecimento da dignidade plena daqueles que pensam de forma diferente.

É justamente nesse contexto que um encontro inter-religioso mais profundo poderia desempenhar um papel construtivo.

Imagine pessoas de diferentes crenças reunidas não para confirmar que seus deuses compartilham as mesmas posições políticas, mas para explorar como as tradições ancestrais podem abrigar múltiplas visões e interpretações políticas. Imagine grupos de fé se encontrando não para proclamarem unanimidade baseada em interpretações religiosas superficiais, mas para buscar formas de liderar um movimento inter-religioso que fomente um engajamento político mais saudável e construtivo.

Visualize um cenário em que o engajamento inter-religioso deixe de se basear na ideia de que “somos todos iguais”, para se transformar em uma oportunidade de aprofundar relações genuínas com aqueles que realmente possuem perspectivas diferentes.

Ninguém será capaz de fazer isso com todas as pessoas – e, sinceramente, talvez nem devesse. Mas todos nós podemos nos esforçar mais, e com maior frequência, para que o engajamento inter-religioso se renove de maneira a ajudar na cura não só de nossas comunidades, mas do mundo como um todo.


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