A coleção Valentino de Alessandro Michele destaca silhuetas dos anos 70 em Paris
PARIS (AP) — Sob luzes intermitentes que sugeriam um charme duvidoso mais do que um espetáculo, a coleção Valentino de Alessandro Michele demonstrou contenção onde antes havia excessos. Silhuetas típicas dos anos 70 — arcos, franzidos, saias de veludo — criaram um clima de nostalgia controlada durante a Paris Fashion Week.
O ponto alto foi um vestido dourado drapeado com uma gola branca adornada com penas, evocando tanto o mito quanto o passado romano da marca. Uma camisa de bolinhas, saias de cetim divididas por painéis amarelos vibrantes e ocasionais combinações de cores mantiveram o espírito eclético vivo, embora sem a força exuberante que Michele já havia apresentado anteriormente.
Essa foi a essência do desfile: menos espetáculo, mais discrição. Enquanto as primeiras coleções de Michele para a casa – e também sua passagem pela Gucci – transbordavam de excessos, com franjas, turbantes, babados e referências acumuladas, desta vez o designer apostou em linhas mais limpas e em um estilo mais contido. O resultado pareceu mais usável, mas também menos surpreendente.
A identidade da Valentino está enraizada na beleza e na sofisticação. Sob o fundador Valentino Garavani, a casa simbolizava a elegância do jet-set e o icônico “Valentino red”. Com o designer Pierpaolo Piccioli, a marca passou a incorporar uma refinada estética de alta costura. Ao chegar, Michele trouxe um repertório diferente: nostalgia maximalista, estilo sem fronteiras de gênero e um mergulho profundo nos arquivos da marca. Segundo ele, o desafio consiste em “manipular o passado para torná-lo presente”, equilibrando o maximalismo moderno com uma relevância que impede a marca de se congelar no tempo.
Suas temporadas iniciais deixaram isso bem claro. O retorno do ano passado foi repleto de arcos, babados, franjas, turbantes e bordados luxuosos; os acessórios foram empregados ao máximo, enquanto a escolha de modelos e cenários assumiu um caráter teatral. Já a estreia de alta costura em janeiro foi ainda mais ousada – com crinolinas, saias estruturadas, referências ao estilo romano de Fellini e uma rica lista de alusões ao velho Hollywood e ao universo religioso – demonstrando uma grande amplitude, mas também elevando o risco de parecer fantasiosa.
Michele também procurou aproximar a marca do vestuário do dia a dia: calças de tweed, malhas com decote em V, jaquetas de pelo sintético e até uma colaboração com a Vans dividiram espaço com clutchs de porcelana com estampa felina e vestidos com detalhes inspirados em rostos de gato. Essa divisão – entre o vestuário cotidiano e o extraordinário – é a tensão que ele continua tentando resolver.
Em contraste, a coleção mais recente pareceu quase cautelosa. Capturou o instinto eclético de Michele, porém de forma mais ordenada e segura. Não se tratou do choque do novo ou do êxtase presente em suas exibições anteriores, mas de um capítulo mais contido, que prova que o designer também é capaz de trabalhar com restrição.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.

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