Papa Leo enfatiza as Escrituras como base da preocupação cristã com os pobres

No passado, o ensino social católico baseava-se em documentos papais e apelos à lei natural. Passagens das Escrituras eram utilizadas como um tempero em uma refeição bem preparada, mas jamais constituíam o núcleo do argumento.

Enquanto os protestantes abraçavam o princípio da “sola scriptura” (somente a Escritura), os católicos orgulhavam-se de ensinamentos fundamentados tanto na fé quanto na razão. Os ensinamentos da Igreja dependiam fortemente da filosofia aristotélica, conforme interpretada por filósofos escolásticos e teólogos, e as Escrituras serviam apenas como “textos de prova” para conclusões previamente estipuladas.

Era esperado que os católicos aceitassem esse ensino com base na autoridade papal, enquanto outros eram convencidos pela clareza do raciocínio. O apelo à razão, em detrimento da fé, possibilitava o diálogo com pensadores seculares, mas também tornava o discurso árido e pouco inspirador, dificultando a apreciação por parte dos protestantes do ensino social católico.

A exortação apostólica Dilexi te (“Eu vos amei”), emitida em 4 de outubro pelo Papa Leo XIV, marca uma mudança significativa. Trata-se de um documento dirigido aos cristãos, fortemente enraizado nas Escrituras. Leo herdou, desse ensinamento, o que se tornaria sua primeira exortação apostólica, inspirando-se nas visões do Papa Francisco, enquanto adaptava e revisava o texto para refletir seus próprios pensamentos. Ambos os pontífices afirmam que aqueles que não enxergam o cuidado com os pobres como “o cerne ardente da missão da Igreja” devem reexaminar o Evangelho.

Os dois primeiros capítulos de Dilexi te apresentam passagens bíblicas enriquecedoras para a pregação e a reflexão acerca da relação adequada entre os cristãos e os pobres. Como todos os cristãos compartilham as mesmas Escrituras, esses capítulos oferecem também um vasto material para o diálogo ecumênico sobre como devemos pensar e agir em relação aos pobres. Somente no Capítulo 4 o documento mergulha mais fundo no ensino social católico.

Conforme os Capítulos 1 e 2, “o amor pelo Senhor é, portanto, inseparável do amor pelos pobres”, resumindo o ensinamento do Evangelho de Mateus: “Assim, ao fazer o bem a um destes meus irmãos, mesmo o menor, você o fez a mim.” O Capítulo 3 revisita os ensinamentos dos pais da Igreja e destaca o papel das comunidades religiosas na assistência aos desfavorecidos.

No Capítulo 2, uma verdadeira cornucópia de citações bíblicas evidencia o ensinamento de que Deus se preocupa com os pobres e que temos a obrigação de amá-los e cuidar deles. O argumento central do documento é que “o contato com os que são humildes e desprovidos de poder é uma forma essencial de encontrar o Senhor da história.” Nos Evangelhos, fica demonstrado que, por meio da encarnação, Deus escolheu “compartilhar as limitações e fragilidades da nossa natureza humana – ele próprio se tornou pobre e nasceu na carne, como nós.”

Mais adiante, Leo afirma: “Ao desejar inaugurar um reino de justiça, fraternidade e solidariedade, Deus reserva um lugar especial em seu coração para aqueles que são discriminados e oprimidos, e nos convoca, como Sua Igreja, a fazer uma escolha decisiva e radical em favor dos mais vulneráveis.”

O documento ressalta ainda que “o Evangelho nos mostra que a pobreza marcou todos os aspectos da vida de Jesus”, desde seu nascimento em Belém até sua morte na cruz. Jesus se apresentou ao mundo não somente como o Messias pobre, mas também como o Messias dos pobres e para os pobres.

Para Leo, Cristo está presente nos pobres, e Sua mensagem foi de libertação. Em suas primeiras palavras do ministério público, Jesus ecoou o profeta Isaías, conforme narrado no Evangelho de Lucas: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para levar boas novas aos pobres.” Seus milagres são interpretados como “manifestações do amor e da compaixão com que Deus contempla os enfermos, os pobres e os pecadores que, por conta de sua condição, foram marginalizados pela sociedade e por pessoas de fé.”

O papa reforça que “Deus está próximo, Deus ama você”, citando as Bem-Aventuranças: “Bem-aventurados os pobres, porque deles é o reino de Deus”. Assim, “a Igreja de Cristo deve ser uma Igreja das Bem-Aventuranças, um espaço que acolhe os pequenos e caminha junto com os pobres, garantindo-lhes um lugar privilegiado”, escreve Leo.

Para desafiar aqueles que enxergam os pobres como pecadores ou os consideram merecedores de seu destino, Jesus narra a parábola do homem rico, que se assombra ao constatar que Lázaro, o mendigo à sua porta, habita o céu, enquanto ele próprio é excluído. Deus relembra: “Filho, recorde-se de que durante sua vida você recebeu coisas boas, assim como Lázaro recebeu coisas ruins; mas agora ele está confortado aqui, enquanto você sofre.”

Leo e Francisco afirmam que “nossa fé em Cristo, que se tornou pobre e sempre esteve próximo dos marginalizados, é a base da nossa preocupação com o desenvolvimento integral dos membros mais negligenciados da sociedade.” Em meio a essa reflexão, Leo pergunta: “Mesmo com o ensinamento das Escrituras sendo tão claro em relação aos pobres, por que tantas pessoas continuam acreditando que podem ignorá-los com segurança?”

O Capítulo 2 também recorda o segundo mandamento de Cristo – “Ame o seu próximo como a si mesmo” – além de trazer a primeira carta de São João, que ensina: “Aqueles que não amam um irmão ou irmã que viram, não podem amar um Deus que não viram.”

Citando o Papa Francisco, Leo adverte contra a diluição desses textos por meio de interpretações excessivamente espiritualizadas. Ele afirma que a mensagem da Palavra de Deus é “tão clara e direta, tão simples e eloquente, que nenhuma interpretação eclesial tem o direito de relativizá-la. A reflexão da Igreja sobre esses textos não deve ofuscar nem enfraquecer sua força, mas sim nos incentivar a acolher suas exortações com coragem e zelo.”


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