Muitas pessoas em nossa região não percebem que o que chamam de objeção religiosa não é religião de fato, mas sim política vestida de religião. Frequentemente, cita-se o versículo: “E jamais os judeus ou os cristãos ficarão satisfeitos contigo, até que sigas a sua religião” (Surata Al-Baqarah 2:120). Contudo, esse versículo foi revelado em um momento histórico específico e para uma situação particular, não se tratando de uma ordem permanente para todas as épocas e contextos. Mesmo assim, os árabes continuam a politizar o versículo, ampliando seu significado para além do contexto original.
A contradição é evidente. As sociedades árabes permitem que os cristãos exibam abertamente seus símbolos religiosos – como cruzes, árvores de Natal, figuras do Papai Noel, embrulhos festivos e enfeites – em shoppings, escolas e espaços públicos, sem que isso seja considerado traição ou normalização. Mas, quando o mesmo princípio se aplica aos judeus, imediatamente se torna um escândalo. Isso não é uma questão de religião, mas sim de aplicação seletiva para conveniência política. Segundo a Constituição do Bahrein, a liberdade de religião é garantida para todas as comunidades – muçulmanos, cristãos e judeus – e o Estado protege a prática e os símbolos de todas as fés sem discriminação. Assim, itens religiosos judaicos, como embrulhos de presentes festivos ou enfeites simbólicos, estão sob a mesma proteção legal que permite a exibição de árvores de Natal, cruzes e decorações islâmicas em supermercados e espaços públicos. As recentes reações nas redes sociais, que rejeitam os símbolos judaicos em lojas locais, contrastam diretamente com a Constituição, que assegura a todas as comunidades o direito de praticar e exibir suas tradições religiosas sem discriminação.

Essa reação pública aos símbolos judaicos em lojas locais revela como algumas pessoas rejeitam seletivamente os direitos de uma comunidade, mesmo com a garantia constitucional de liberdade religiosa para todos.
A normalização é um conceito político que abrange diplomacia, segurança, economia e tecnologia, enquanto a liberdade religiosa é um direito legal ligado à cidadania e ao direito civil. São duas questões distintas. Aqueles que atacam os itens religiosos judaicos não estão, na verdade, defendendo o Islã; estão misturando categorias e expondo uma profunda falta de compreensão. Em qualquer Estado que se proclame defensor da liberdade de religião, a aplicação das regras deve ser consistente – o que é permitido para muçulmanos e cristãos também deve ser permitido para os judeus. Do contrário, o Estado não estará aplicando a lei, mas sim cedendo à pressão emocional. Uma sociedade que protege todas as crenças de forma equânime não está se comprometendo; está, simplesmente, honrando seus próprios princípios.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.


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