Santos dos Últimos Dias realizam sua primeira conferência geral sem um presidente há pelo menos um século
SALT LAKE CITY (AP) — A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias inicia, neste sábado, sua conferência geral bienal, em um momento crucial para sua história: poucos dias após o falecimento de seu presidente de maior longevidade e um ataque fatal a uma congregação em Michigan.
A morte do presidente Russell M. Nelson deixa um vazio, mas a igreja conta com uma hierarquia de liderança bem definida que garante uma transição tranquila. Dallin H. Oaks, homem destinado a suceder Nelson, já desempenha um papel de destaque na direção da instituição, atuando como um dos dois principais conselheiros do ex-presidente. Espera-se que a ascensão de Oaks à presidência seja anunciada após o funeral de Nelson, marcado para terça-feira, quando cerca de 100 mil membros se reunirão na sede da igreja, em Utah.
Com cerca de 200 anos de existência e amplamente conhecida como a Igreja Mórmon, a denominação não realiza uma conferência geral sem um presidente há pelo menos um século. Entretanto, conforme destaca Patrick Mason, professor de estudos religiosos e história na Utah State University, não há nenhum vácuo de liderança.
Enquanto a igreja navega neste período interino, o Quórum dos Doze Apóstolos – liderado por Oaks – está conduzindo os mais de 17 milhões de membros ao redor do mundo, de forma semelhante ao papel desempenhado por Brigham Young por mais de dois anos após a morte do fundador Joseph Smith, em 1844.
Já no século XIX, era comum que se passassem alguns anos antes da nomeação de um novo presidente. O Quórum também assumiu a liderança durante períodos prolongados após as mortes de Young, em 1877, e de John Taylor, em 1887. A última vez que um presidente faleceu poucos dias antes de uma conferência geral foi em abril de 1951, com o falecimento de George Albert Smith, cujo funeral foi integrado ao evento, e um novo presidente foi formalmente anunciado durante a reunião.
Hoje, não é incomum que um presidente, ainda vivo, deixe de comparecer a uma conferência por motivos de saúde, especialmente devido à idade avançada. Aos 93 anos, Oaks estará entre os presidentes mais idosos – sete dos nove últimos exerceram seus mandatos após completarem os 90, com cinco ultrapassando a idade atual de Oaks. Nelson, inclusive, chegou a viver até os 101 anos.
A ausência de Nelson é sentida tanto entre os milhares de fiéis reunidos pessoalmente neste fim de semana quanto entre os que acompanham o evento remotamente ao redor do mundo. A conferência, que se estende por dois dias, apresenta sermões e serve como um momento de unificação para a comunidade global da fé, possibilitando aos membros refletirem sobre a doutrina de forma pessoal, enquanto dirigentes abordam as principais questões do momento.
Matthew Bowman, especialista em história religiosa dos Estados Unidos na Claremont Graduate University, observa: “A sombra de Nelson pairará intensamente sobre a conferência.”
Tradicionalmente, o presidente – considerado um profeta pelos membros – é o orador principal da conferência, ocasião em que novas iniciativas e políticas são anunciadas. Nelson costumava aproveitar esse momento para revelar projetos importantes, como a construção de novos templos, e suas citações marcantes eram frequentemente repetidas pelos demais oradores, hábito que, provavelmente, continuará enquanto seu legado for homenageado.
Além do impacto causado pela morte de Nelson, os fiéis ainda enfrentam as consequências de um ataque ocorrido recentemente a uma congregação em Michigan. Quatro pessoas foram fatais dentro de uma igreja no Condado de Grand Blanc, após um agressor ter investido sua caminhonete contra o templo, aberto fogo contra os congregantes e incendiado parte do edifício. O atirador, que foi abatido pela polícia, era descrito por conhecidos como alguém que nutria um ressentimento contra a igreja.
Embora os especialistas não esperem grandes mudanças na estrutura da conferência, todos estarão atentos ao discurso de Oaks. Em eventos anteriores, ele foi o orador que teve maior propensão para abordar questões políticas. Ex-juiz da Suprema Corte de Utah, Oaks é conhecido por seu senso jurídico e convicções tradicionais sobre temas como casamento e liberdade religiosa. Ele tem sido um importante defensor da igreja na oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e na manutenção do ensino de que a homossexualidade é pecado, posição que tem gerado apreensão entre membros LGBTQ+ e seus aliados.
Ooks também se destacou por enfatizar a importância do discurso civilizado e por repudiar qualquer forma de violência – questões que podem ganhar ainda mais relevância neste fim de semana. “Mesmo antes do recente ataque, eu não teria me surpreendido se ele abordasse temas como a liberdade religiosa ou a importância da civilidade”, afirma Bowman. “Contudo, diante das novas responsabilidades que se aproximam, é possível esperar que ele adote uma perspectiva mais ampla, abordando temas que envolvem o cristianismo, a eternidade e afins.”
Em meio a esses momentos de mudança e desafio, a conferência geral promete ser um marco na trajetória dos Santos dos Últimos Dias, reafirmando sua fé e resiliência diante das adversidades.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.

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