Papa a FAO: “Slogans não tiram as pessoas da pobreza”

Papa Leo XIV pediu responsabilidade compartilhada diante da fome mundial durante visita à sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em Roma, na última quinta-feira.

“O coração do papa, que não pertence a si mesmo, mas à Igreja e, de certa forma, a toda a humanidade, mantém a confiança de que, se a fome for vencida, a paz se tornará o terreno fértil do qual nascerá o bem comum de todas as nações”, afirmou Leo em 16 de outubro.

Após ouvir os comentários do diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, o Santo Padre discursou – em espanhol e inglês – aos participantes do evento que celebrou o Dia Mundial da Alimentação. Entre os presentes, encontravam-se a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, a rainha Letizia da Espanha, o rei Letsie III de Lesoto, a princesa Basma bint Talal, da Jordânia, e o ex-secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon.

Meus irmãos e irmãs

No 80º aniversário da fundação da FAO, o papa ressaltou que nossas consciências devem nos impulsionar a enfrentar a tragédia da fome, fazendo um apelo à responsabilidade de todos.

“Aqueles que sofrem com a fome não são estranhos; são meus irmãos e irmãs, e preciso ajudá-los sem demora”, declarou.

Leo alertou ainda que o mundo necessita de um compromisso real com esta questão, e não apenas de “declarações solenes”, para que ninguém fique privado do alimento essencial. Segundo ele, permitir que milhões de seres humanos morram de fome representa uma “falha coletiva, uma aberração ética, um pecado histórico”.

Condemunando os conflitos globais como “espetáculos macabros”, o Santo Padre condenou o uso da comida como arma de guerra, qualificando-o de “estratégia cruel” que nega o direito à vida.

“O silêncio daqueles que morrem de fome grita para a consciência de todos, mesmo que frequentemente seja ignorado, silenciado ou distorcido. Não podemos seguir assim, pois a fome não é o destino do homem, mas a sua ruína”, asseverou.

Em seu discurso, o papa questionou se as futuras gerações merecerão um mundo incapaz de erradicar a fome e a pobreza de uma vez por todas. Ele também criticou a polarização dos líderes políticos e sociais, que, ao desperdiçarem tempo e recursos com argumentos inúteis, acabam por esquecer e explorar os mais necessitados.

“Não podemos nos limitar a proclamar valores; é preciso incorporá-los, pois os slogans não tiram as pessoas da pobreza”, concluiu, condenando o paradigma político e a visão ética que “substituem a pessoa pelo lucro”.

Soluções reais, não “cartazes chamativos”

O papa ressaltou que não devemos “nos contentar em encher paredes com grandes cartazes chamativos”, mas sim adotar um compromisso unificado. Ele enfatizou a importância do multilateralismo e da cooperação internacional, entendendo que somente assim as dificuldades dos países mais pobres poderão ser definitivamente compreendidas e solucionadas, sem impor soluções formuladas em escritórios distantes e reuniões dominadas por ideologias que frequentemente ignoram as culturas ancestrais, as tradições religiosas e os costumes enraizados na sabedoria dos anciãos.

Papa Leo XIV insistiu que o sofrimento dos que padecem com a fome nos convida a reavaliar nossos estilos de vida e a compartilhar sua dor. Ao não honrarmos nossos compromissos, tornamo-nos cúmplices na promoção da injustiça. Diante dos horrores da guerra, ele enfatizou que a comunidade internacional “não pode fechar os olhos”.

“Não podemos aspirar a uma vida social mais justa se não estivermos dispostos a abandonar a apatia que justifica a fome como se fosse uma música de fundo, um problema insolúvel ou simplesmente a responsabilidade de outrem”, afirmou.

O Santo Padre concluiu sua mensagem lembrando que também há “uma fome de fé, esperança e amor” e encorajou todos a nunca se cansarem de pedir a Deus a força necessária para servir os mais necessitados.


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