SANTIAGO DE COMPOSTELA, Espanha (AP) — Enquanto alguns moradores de Barcelona procuravam repelir um tsunami de turistas com pistolas de água de plástico, uma associação de bairro em Santiago de Compostela optou por uma abordagem mais amigável: um guia de boas maneiras para os visitantes da cidade, o ponto final da peregrinação mais famosa do mundo católico.

Traduzido para várias línguas, o grupo publicou o guia por toda a cidade no noroeste da Espanha e o distribuiu em seus hostels, cujo número cresce continuamente. O material lembra os turistas de manter o volume baixo, respeitar as regras de trânsito e utilizar protetores de plástico nas hastes de caminhada para evitar danos às estreitas ruas de paralelepípedos, entre outras recomendações.

Sem muito efeito, grandes grupos ainda dominam as ruas cantando hinos, bicicletas circulam na direção contrária e pontas de postes metálicos batem no chão. As redes sociais de Santiago estão repletas de fotos que denunciam a ausência de comportamento adequado.

No entanto, a maior ofensa dos turistas decorre de seus números avassaladores; a cidade antiga e as praças que circundam a catedral – que abriga, supostamente, o túmulo de São Tiago, o Apóstolo, e por séculos foi o coração da vida local – hoje pertencem quase que exclusivamente aos visitantes. Esse influxo maciço tem levado à expulsão dos moradores, fazendo com que Santiago se torne o mais recente destino global onde os residentes de longa data se ressentem do excesso de turismo que transforma sua comunidade.

“Não temos fobia do turismo. Sempre convivemos em harmonia com ele, mas quando sai do controle, quando a pressão ultrapassa o razoável, é aí que nasce a rejeição”, declarou Roberto Almuíña, presidente da associação de bairro da cidade antiga, classificada como Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Cenário para os visitantes

O “Caminho de Santiago”, conhecido em inglês como The Way of St. James, remonta ao século IX, com peregrinos seguindo trilhas convergentes por centenas de quilômetros a partir de rotas que se originam em Portugal e na França. A popularidade moderna adquirida com o filme “The Way”, de 2010, estrelado por Martin Sheen, foi impulsionada mais recentemente pelas redes sociais e pelo turismo voltado à experiência, especialmente após a pandemia de coronavírus.

No ano passado, um recorde de meio milhão de pessoas se inscreveu para percorrer uma das rotas autorizadas até a catedral – o equivalente a cinco vezes a população residente da cidade e um aumento de 725 vezes em relação às últimas quatro décadas. Além disso, há ainda os turistas convencionais que não chegam pelo Caminho.

A proliferação de aluguéis de curto prazo fez com que os preços dos aluguéis anuais aumentassem 44% de 2018 a 2023, segundo estudo encomendado pela prefeitura à Fundación Universidade da Coruña. Em maio, as autoridades municipais solicitaram ao governo regional que classificasse a área como uma zona de alta pressão – semelhante a Barcelona ou San Sebastián – para ajudar a conter o aumento dos aluguéis.

Já em novembro passado, a prefeitura de Santiago decretou a proibição de acomodações turísticas ao estilo Airbnb no centro histórico, afirmando tratar-se “de uma necessidade decorrente do seu crescimento expressivo, que impacta tanto o número de unidades habitacionais disponíveis para os moradores quanto seus preços.”

Sihara Pérez, pesquisadora da Universidade de Santiago, descreveu encontrar qualquer lugar para alugar na cidade como uma “missão impossível”, enquanto Antonio Jeremías, de 27 anos, afirmou à imprensa que cogita voltar a morar com a mãe, pois seu salário integral num armazém não cobre todas as despesas.

Andrea Dopazo, de 32 anos, tentou se mudar da casa dos pais em um bairro localizado a 5 quilômetros do centro da cidade. Entretanto, seu desejo de continuar morando no lugar onde cresceu e manter os fortes laços comunitários se mostrou inviável, sendo forçada a aceitar uma residência em uma cidade próxima a Santiago.

“As únicas pessoas que conseguiram permanecer nos bairros foram aquelas que tiveram a sorte – ou a infortúnio – de herdar um apartamento de seus avós, tios ou pais”, comentou Dopazo, que atua na área de recursos humanos.

Em toda a Espanha, grandes protestos contra a habitação inacessível têm ocorrido nas ruas, muitos atribuindo a crise aos turistas que consomem os aluguéis de curto prazo.

Quebrando as regras

Na cidade antiga, os turistas podem se hospedar em pequenos hotéis instalados em antigas residências ou em enormes hostels, convertidos de antigos seminários, que não estão sujeitos à proibição. Contudo, na ânsia de lucrar, alguns aluguéis de curto prazo parecem desobedecer à restrição, evidenciado pelos inquilinos que recolhem chaves de caixas de segurança fixadas do lado de fora dos prédios.

“Alguns seguem as regras e outros não, mas esse é o modelo que realmente limita a habitação residencial”, afirmou Montse Vilar, de outro grupo de bairro, o Xuntanza.

A Prefeitura de Santiago declarou que está “fazendo tudo ao seu alcance para fazer cumprir as regulamentações” e toma medidas sempre que detecta um apartamento ilegal destinado a turistas.

Entre 2000 e 2020, o centro histórico perdeu cerca de metade da sua população permanente, que agora se resume a apenas 3.000 residentes que, como “os gauleses”, resistem por trás das espessas fachadas de pedra dos prédios. Lojas de ferragens e bancas de jornal desapareceram, restando apenas uma padaria, enquanto alguns supermercados coexistem com cafés, sorveterias e lojas de souvenirs.

“A cidade se esvaziou. Basta dar uma volta para ver que tudo o que temos são prédios fechados e abandonados, que estão caindo aos pedaços”, acrescentou Almuíña.

Espiritualidade

Este ano, o número de peregrinos que chegam a Santiago está prestes a bater um novo recorde. Esse aumento tem deixado os moradores cada vez mais insatisfeitos com o modelo econômico centrado no turismo que domina a cidade; em 2023, metade dos residentes rejeitou essa realidade, em comparação com pouco mais de um quarto há uma década, segundo estudo realizado pela Rede Galabra, grupo de pesquisa focado em estudos culturais na Universidade de Santiago.

Até mesmo alguns dos peregrinos têm percebido mudanças, como os espanhóis Álvaro Castaño e Ale Osteso, que se conheceram na rota há quatro anos e voltam todos os anos desde então. “O Caminho está se tornando cada vez mais conhecido, muitas mais pessoas estão chegando”, afirmou Osteso em uma manhã recente, ao final de sua jornada, em meio a grupos de peregrinos com roupas coloridas combinando e famílias registrando o momento. “A espiritualidade, por vezes, parece ter se perdido um pouco.”


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