Edifícios, rituais, identidades vêm e vão

Edifícios, rituais e identidades vêm e vão. Eles não podem ser o coração da religião.

A religião verdadeira te incomoda. Ela obriga você a encarar o que preferiria evitar: a desonestidade, a insegurança e o medo da morte. Por isso, os Upanishads foram comparados a um espelho. Eles não vinham para confortar, mas para revelar. Contudo, os espelhos são perigosos para o ego, pois expõem as imperfeições.

Com o tempo, sacerdotes e instituições encontraram mais segurança ao substituir o espelho por paredes de mármore. Templos e catedrais ergueram-se imponentes, os rituais se tornaram elaborados e a religião foi, em grande parte, reduzida a um espetáculo que traz conforto momentâneo, sem promover transformação.

Enquanto não descobrirmos a vastidão da nossa riqueza interior, continuaremos a nos confrontar por pequenos símbolos que equivocadamente confundimos com religião: roupas, costumes, rituais ou identidades. Em quase toda violência sectária da história, da Europa ao Oriente Médio e ao Sul da Ásia, a falha mais profunda não foi a questão de terra ou língua, mas sim a religião transformada em identidade.

A falsa religião prospera nessa postura covarde. Ela nos diz que, se nos curvamos e enaltecemos um senhor poderoso – seja ele social, político ou divino – migalhas nos serão oferecidas. Essa barganha, disfarçada de devoção, é justamente o oposto do dharma. A verdadeira religião é, em essência, uma rebelião.


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