Na semana passada, o rabino Steven Burg, que lidera a organização educativa judaica ortodoxa Aish, afirmou em uma coluna que o tiroteio no Annunciation Catholic School, em Minneapolis – que ceifou a vida de dois alunos e feriu 17 – ocasionou um “ataque coordenado ao próprio conceito de oração”. Segundo ele, o ataque ocorreu da seguinte forma:

Em poucas horas após a tragédia, políticos influentes e representantes da mídia lançaram ataques virulentos contra aqueles que ofereciam “pensamentos e orações”. O deputado Maxwell Frost usou palavrões para descartar a oração por completo. Jen Psaki, da MSNBC, classificou-a como “bobagem” e “uma mentira”, enquanto Dana Bash, da CNN, ecoou a irritação do prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, em relação à prática, e outros parlamentares democratas desconsideraram uniformemente o papel da fé na resposta à calamidade.

O ataque aos “pensamentos e orações” por líderes liberais parece refletir uma crise mais profunda que assola a sociedade ocidental: a tentativa sistemática de retirar Deus da vida pública. Zombar da oração é rejeitar a própria base de uma sociedade moral e os alicerces sobre os quais os Estados Unidos foram construídos.

Mas é importante resgatar o contexto. Nos últimos anos, políticos democratas – geralmente favoráveis ao controle de armas – têm criticado os republicanos – que costumam ser contrários a esse controle – por responderem a tiroteios em massa dizendo que seus pensamentos e orações estão com as vítimas. Assim, imediatamente após o trágico episódio da manhã de 27 de agosto, dois membros republicanos da delegação de Minnesota, Michelle Fischbach e Brad Finstad, publicaram mensagens nas redes sociais expressando que “seus pensamentos e orações estavam com todos os afetados por essa situação horrível” e “mantinham os alunos, professores e toda Minnesota em suas preces diante da violência devastadora”, respectivamente.

Nesta mesma tarde, em uma conferência de imprensa emocionada, o prefeito Frey afirmou: “Não diga que se trata apenas de pensamentos e orações. Essas crianças estavam literalmente orando.”

O deputado Frost chegou a publicar em rede social: “Essas crianças provavelmente estavam orando quando foram atingidas mortalmente na escola católica. Não nos tragam seus pensamentos e orações. Trump eliminou o Escritório de Prevenção da Violência com Armas. Trump cortou os recursos destinados a manter nossas comunidades seguras.”

Desta vez, conforme observou Aaron Blake, da CNN, Trumpland resolveu revidar com a sua clássica crítica à esquerda por sua suposta falta de religiosidade. O seguidor JD Vance liderou o debate ao postar: “De todas as guerras culturais estranhas da esquerda nos últimos anos, esta é de longe a mais bizarra. ‘Como vocês ousam orar por pessoas inocentes em meio à tragédia?!’ Do que vocês estão falando?”

A Fox logo abordou o tema com um levantamento de críticas aos “pensamentos e orações”, intitulado “Figuras liberais criticam ‘orações’ após tiroteio em igreja de Minnesota”. Do comentário de Frey – “Não diga que se trata apenas de pensamentos e orações” – foi removida a palavra “apenas”.

O bispo católico de Minnesota, Robert Barron, que anteriormente havia convocado para que se orasse pelas vítimas, rapidamente integrou a discussão, afirmando que o comentário de Frey era “completamente tolo”. Essa crítica repercutiu intensamente na mídia de direita, a ponto de muitos chamarem de um ataque coordenado.

Não que alguém tenha ido tão longe quanto o rabino Burg ao enquadrar a crítica como parte de um esforço para retirar Deus da esfera pública. Talvez, quando se chega tarde a uma discussão, seja necessário intensificar o debate. De qualquer forma, o que o prefeito Frey e as demais figuras liberais fizeram estava em consonância com o que Deus declara através do profeta Isaías:

“Será este o jejum que escolhi? O dia em que o homem se humilha, afligindo a própria alma? É para curvar a cabeça como um junco, e espalhar saco e cinzas sobre si mesmo? Chamareis isso de jejum, um dia aceitável ao Senhor?

Não é este o jejum que escolhi: soltar as correntes da iniquidade, desfazer as ataduras do jugo, e libertar os oprimidos para que se quebrem todos os grilhões?”

Deus não está atacando o conceito de jejum, mas sim criticando as demonstrações exteriores de religiosidade daqueles que não cumprem os mandamentos de agir no mundo. A mensagem é clara: oração e arrependimento, por si sós, não bastam.

Os rabinos nos ensinam a ler essa passagem em Yom Kippur, o dia em que jejuamos e buscamos a expiação pelos nossos pecados. Entre os mandamentos bíblicos, destaca-se o nono dos Dez Mandamentos: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.”

Com Yom Kippur se aproximando, é momento de refletir profundamente sobre essas palavras.


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