Refletindo a Imagem de Deus como Homem e Mulher (Gênesis 1–2)
Discussões sobre homens e mulheres na Bíblia frequentemente começam com Gênesis 3, focando nas consequências da desobediência de Adão e Eva. Dor, trabalho, lutas nos relacionamentos e a distorção da parceria passaram a fazer parte da experiência humana após a rebelião contra Deus.
No entanto, esses resultados jamais foram o plano original de Deus. Para compreender o projeto divino para a humanidade, e especialmente a relação entre homem e mulher, precisamos voltar aos capítulos de Gênesis 1 e 2. Esses textos não têm a intenção de oferecer uma lição de biologia, mas revelam uma antropologia teológica: o significado de ser humano em relação a Deus, ao próximo e à criação.
Gênesis 1: Feitos à Imagem de Deus
O capítulo de Gênesis 1 conclui com Deus examinando toda a criação e declarando-a “muito boa”. A humanidade, criada tanto como homem quanto como mulher, representa o ápice da criação (Gênesis 1:26–31). Ambos foram feitos à imagem e semelhança de Deus, confiados com a missão de serem frutíferos, multiplicarem-se e exercerem domínio sobre a criação como mordomos da terra. Esse mandato foi concedido a ambos, ressaltando sua dignidade e responsabilidade iguais como filhos reais de Deus.
No Antigo Oriente Próximo, imagens de reis ou deuses eram confeccionadas para simbolizar autoridade e presença divinas. Estátuas de governantes ou divindades eram colocadas em templos, praças ou portões de cidade como sinais de domínio e reverência. Gênesis reorienta esse conceito de forma radical: os seres humanos são as “imagens” vivas de Deus. Em vez de meras estátuas inanimadas, homem e mulher foram criados para serem representações ambulantes do governo benevolente de Deus na terra.
De acordo com a proibição bíblica contra ídolos, os humanos são as únicas “estátuas” aceitáveis de Deus. Consequentemente, a maneira como tratamos uns aos outros reflete como tratamos o próprio Deus, como ensinado por Jesus quando declarou: “Em verdade vos digo: tudo o que fizerdes a um destes meus irmãos, mesmo o menor, a mim o fizestes” (Mateus 25:40, 45).
O desígnio de Deus desde o princípio era que a humanidade, na parceria de homem e mulher, refletisse a Sua glória, cuidasse da criação e encarnasse o Seu amor. Amar a Deus é inseparável de amar e honrar aqueles que carregam Sua imagem. Gênesis 2 aprofunda esse tema ao mostrar como essa identidade se manifesta na prática.
Gênesis 2: Quatro Dimensões da Identidade Humana
Gênesis 2 enriquece o relato do capítulo anterior ao oferecer imagens que ressaltam como homem e mulher, em conjunto, encarnam o propósito de Deus. Esses trechos não pretendem ensinar biologia, mas transmitir uma antropologia teológica – ou seja, explicar o que significa ser humano não apenas como ser biológico, mas em relação a Deus e aos outros.
Ao transitar de Gênesis 1 para 2, o foco se desloca da criação do universo como o templo cósmico de Deus para a formação e individualidade da humanidade como família real divina. Dessa forma, emergem quatro dimensões principais da identidade humana: seres espirituais, seres morais, seres sacerdotais e parceiros, homem e mulher, que juntos compõem o espaço sagrado.
1. Seres Espirituais Soprados por Deus
Gênesis 2:7 descreve a criação do ser humano (adão) a partir do solo (adamah). Assim como os animais, o homem é formado da terra, mas, diferente deles, é animado pelo sopro de vida de Deus (nishmat hayim). Essa inspiração divina confere uma dimensão espiritual singular, demonstrando que os seres humanos foram criados para estabelecer comunhão com Deus – algo que os distingue de todas as demais criaturas e fundamenta seu papel único na criação.
2. Seres Morais com Capacidade de Escolha
A segunda dimensão da identidade humana surge dos limites morais estabelecidos por Deus no Éden. Em Gênesis 2:9 e 16–17 são apresentadas a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. Antes da proibição de comer do fruto dessa última, não se esperava do ser humano uma decisão moral, já que nenhum impedimento havia sido estabelecido, conforme observado por Jacqueline Lapsley.
Com o comando divino, surgiu a possibilidade de confiar em Deus ou de buscar autonomia à parte. Deus ordenou: “Você pode comer livremente de qualquer árvore do jardim” (Gênesis 2:16), impondo apenas a proibição de consumir o fruto da árvore do conhecimento sagrado – que, se desobedecida, traria a morte ao romper o relacionamento com Deus. Assim como flores parecem vivas quando imersas em água, mas murcham ao serem separadas de suas raízes, a história ilustra que o conhecimento não deve ser buscado com orgulho ou independência, mas com reverência a Deus. A queda em Gênesis 3 ocorre justamente quando essa fronteira é transgredida, demonstrando que a liberdade humana é definida pela confiança no Criador.
3. Sacerdotes no Santuário de Deus
Gênesis 2:15 apresenta a terceira dimensão da identidade humana: a vocação sacerdotal para guardar o santuário. Deus colocou o homem no jardim “para cultivá-lo e guardá-lo”, termos que remetem às funções dos sacerdotes no templo de Israel – ministrar diante de Deus e proteger o espaço sagrado contra a impureza. A missão, atribuída tanto a homem quanto a mulher, era a de agir como sacerdotes, preservando, protegendo e expandindo o espaço sagrado que Deus desejava habitar dentre a humanidade.
Esse chamado também implicava a necessidade de estar vigilante contra forças que pudessem corromper ou profanar o sagrado, como exemplificado pela intrusão da serpente em Gênesis 3. Embora a humanidade tenha falhado nesse aspecto, a vocação sacerdotal – de resguardar a presença de Deus – permanece como um elemento central do propósito humano.
4. Parceiros Masculinos e Femininos no Espaço Sagrado
A quarta dimensão diz respeito à encarnação da identidade humana em termos de gênero. Em Gênesis 2:18 fica claro que “não é bom que o homem esteja só”. Para suprir essa necessidade, Deus criou uma companheira, descrita no hebraico como ezer – geralmente traduzido como “ajuda” ou “auxílio”. Importante destacar que esse termo não implica subordinação, pois em diversas passagens a mesma palavra é usada para se referir a Deus como um auxílio forte e libertador.
Gênesis 2:21–22 aprofunda essa ideia ao descrever a criação da mulher a partir do lado do homem – o termo hebraico tsela, normalmente traduzido como “costela”. Interpretar esse relato como uma explicação clínica ou anatômica é equivocado. Das quarenta ocorrências de tsela na Bíblia Hebraica, trinta e seis referem-se aos lados de estruturas sagradas, tais como:
- Paredes e entradas de templos
- Laterais do Tabernáculo
- O Santo dos Santos
- A Arca da Aliança
- O Altar do Incenso
- O Altar dos Holocausto
Esses lados são essenciais para a integridade das estruturas sagradas. Ao empregar essa metáfora arquitetônica, Gênesis apresenta homem e mulher como os dois lados que sustentam o espaço sagrado. Ausência ou desigualdade em qualquer um desses “lados” compromete a manifestação da presença divina. Ambos são indispensáveis para que a morada de Deus seja completa entre a humanidade.
A imagem mostra que a distinção de gênero não é acidental, mas sim fundamental para o plano de Deus. Homem e mulher foram criados para atuarem como co-sacerdotes no santuário cósmico de Deus, sustentando e ampliando o espaço sagrado por meio de uma parceria baseada na dependência mútua e na igualdade, refletindo assim a presença divina de forma unida.
Conclusão: Recuperando a Intenção de Deus para a Humanidade
Os capítulos de Gênesis 1 e 2 oferecem uma visão profunda da humanidade. Somos terráqueos infundidos com o Espírito de Deus, seres morais capazes de escolher, sacerdotes chamados a proteger o espaço sagrado e parceiros – homem e mulher – criados para refletir, em conjunto, a presença divina. Essa abordagem teológica contrapõe visões que reduzem o gênero a hierarquias ou a humanidade a meros componentes biológicos, convidando-nos a retomar o propósito original de Deus: homens e mulheres, unidos, levando adiante Sua imagem, expandindo Sua presença e promovendo a integridade no mundo.
Quando essa visão é resgatada, os relacionamentos podem ser restaurados, a adoração renovada e a missão divina ganha novo vigor. Gênesis 2 nos chama a enxergar nossa existência não apenas como indivíduos, mas como um espaço sagrado, morada do Espírito de Deus, onde parceiros – homens e mulheres – trabalham unidos para expandir o reino divino na terra.
Notas de Rodapé
- Catherine L. McDowell, The Image of God in the Garden of Eden: The Creation of Humankind in Genesis 2:5-3:24 in Light of the Mīs Pî, Pīt Pî, and Wpt-r Rituals of Mesopotamia … and Theology of the Hebrew Scriptures, 1ª edição (Eisenbrauns, 2015).
- W. Randall Garr, In His Own Image and Likeness: Humanity, Divinity, and Monotheism (Brill Academic Pub, 2003).
- Daniel E. Fleming, “Religion,” in Dictionary of the Old Testament: Pentateuch (InterVarsity Press, 2002), 683.
- G. K. Beale, The Temple and the Church’s Mission: A Biblical Theology of the Dwelling Place of God (IVP Academic, 2004), 25.
- Richard Davidson, “Earth’s First Sanctuary: Genesis 1–2 and Parallel Creation Accounts,” Andrews University Seminary Studies, 2015, 65.
- Jacqueline E. Lapsley, Whispering the Word: Hearing Women’s Stories in the Old Testament, edição anotada (Westminster John Knox Press, 2005), 14–18.
- Jacqueline E. Lapsley, Whispering the Word: Hearing Women’s Stories in the Old Testament, p. 14.
- Gregory K. Beale, “Eden, the Temple, and the Church’s Mission in the New Creation,” JETS 48 (2005): 6–8.
- John Walton, The Lost World of Adam and Eve: Genesis 2–3 and the Human Origins Debate (InterVarsity, 2015), 106, 111–112.
- Gordon John Wenham, Genesis 1–15, Volume 1, organizado por David Allen Hubbard, Glenn W. Barker e John D. W. Watts. Word Biblical Commentary 1 (Zondervan Academic, 2014).
- Richard Davidson, “Earth’s First Sanctuary,” p. 72.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.



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