LONDRES (AP) — O Reino Unido, a Austrália e o Canadá reconheceram formalmente um estado palestino neste domingo, provocando uma resposta enraivecida de Israel, que descartou essa possibilidade.

A iniciativa coordenada dos três países da Commonwealth, tradicionais aliados, reflete uma crescente indignação com a conduta de Israel na guerra em Gaza e com as medidas tomadas pelo governo israelense para impedir a criação de um estado palestino, como a contínua expansão dos assentamentos na Cisjordânia.

O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, que enfrentou pressão interna para adotar uma postura mais rigorosa em relação a Israel diante do agravamento da situação em Gaza, afirmou que a decisão do Reino Unido tem o objetivo de “reviver a esperança de paz para palestinos e israelenses”. Ele ressaltou que essa medida não visa recompensar o Hamas, responsável pelo ataque de 7 de outubro de 2023, que ceifou a vida de cerca de 1.200 pessoas e resultou na captura de 251 outras.

Em mensagem em vídeo, Starmer declarou: “Hoje, para reviver a esperança de paz e de uma solução de dois Estados, afirmo claramente, como primeiro-ministro deste grande país, que o Reino Unido reconhece formalmente o Estado da Palestina. Reconhecemos o Estado de Israel há mais de 75 anos como lar do povo judeu. Hoje, juntamo-nos a mais de 150 países que também reconhecem um Estado palestino.”

A decisão dos três países provocou críticas do primeiro-ministro israelense, que afirmou que o estabelecimento de um estado palestino “não vai acontecer”, enquanto o Hamas pediu à comunidade internacional que isole Israel.

Na mesma tarde, Portugal também anunciou o reconhecimento de um estado palestino.

Reações Palestinas e Israelenses

O primeiro-ministro israelense criticou os três países por oferecerem um “prêmio” ao Hamas, afirmando categoricamente que “um estado palestino não será estabelecido a oeste do rio Jordão”.

Em pronunciamento, ele deixou claro que anunciará a resposta de Israel após seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas e sua reunião com o presidente dos Estados Unidos.

As autoridades israelenses já haviam ameaçado tomar medidas unilaterais, que poderiam incluir a anexação de partes da Cisjordânia, em resposta a esse reconhecimento, o que facilitaria o controle israelense sobre o território e aumentaria as tensões com a comunidade internacional.

O Hamas saudou a decisão, qualificando-a como “o resultado legítimo da luta, resiliência e sacrifícios do nosso povo pelo caminho da libertação e do retorno”. O grupo islâmico, que tem como objetivo a destruição de Israel, convocou a comunidade internacional a isolar o país.

O presidente palestino Mahmoud Abbas, cuja Autoridade Palestina exerce autonomia limitada em algumas cidades e vilarejos da Cisjordânia, afirmou que o anúncio do Reino Unido é um passo importante para alcançar uma “paz justa e duradoura na região, baseada na solução de dois Estados”.

Contexto Histórico

O Reino Unido e a França desempenharam papéis históricos na política do Oriente Médio ao longo dos últimos 100 anos, tendo repartido a região após a derrota do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial.

Durante esse processo, o Reino Unido passou a ser a potência governante da Palestina, e também foi responsável pela redação da Declaração Balfour de 1917, que apoiava o estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu”.

No entanto, a parte da declaração que protegia os direitos civis e religiosos dos palestinos foi, em grande medida, negligenciada com o passar dos anos.

Especialistas costumam enfatizar a importância histórica desse reconhecimento pelo Reino Unido e pela França, especialmente considerando o legado de suas intervenções no Oriente Médio. Contudo, há o receio de que, sem o apoio dos Estados Unidos à ideia de um estado palestino, muito pouco mudará na prática.

Mudança Diplomática

Embora o Reino Unido sempre tenha apoiado a criação de um estado palestino independente ao lado de Israel, condicionava esse reconhecimento à implementação de um plano de paz que leve à solução de dois Estados.

Nos últimos anos, porém, o governo britânico vem se preocupando cada vez mais com a inviabilidade dessa solução, especialmente após a ofensiva de Israel em Gaza, que resultou no deslocamento da maior parte da população, na morte de mais de 65 mil pessoas e em uma crise humanitária catastrófica, com inclusive a ocorrência de uma fome em Gaza.

Semanalmente, especialistas independentes designados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluíram que Israel está praticando atos que beiram o genocídio em Gaza, alegação que o governo israelense refuta, descrevendo-a como “distorcida e falsa”.

Outro ponto de preocupação para o Reino Unido é a agressiva expansão dos assentamentos na Cisjordânia, território que os palestinos reivindicam para seu futuro estado. Grande parte da comunidade internacional considera a ocupação israelense da Cisjordânia, aparentemente administrada pela Autoridade Palestina, como ilegal.

Segundo analistas, esse movimento tem forte carga simbólica e histórica, evidenciando a preocupação do Reino Unido com a viabilidade de uma solução de dois Estados, e serve para manter esse objetivo relevante e vivo no debate internacional.

O reconhecimento de um estado palestino ao lado de Israel é visto por muitos como a única saída real para a resolução do conflito a longo prazo.


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