Alexandria, Virgínia — Michael Nachmanoff construiu uma reputação discreta no tribunal federal do norte da Virgínia. Ex-defensor público que se tornou juiz, ele é conhecido por sua preparação meticulosa e temperamento sereno. Na quarta-feira, Nachmanoff passará a presidir o processo do Departamento de Justiça contra o ex-diretor do FBI, James Comey.

Confirmado para a magistratura pelo presidente Joe Biden em 2021, Nachmanoff foi designado aleatoriamente para o caso após um grande júri da Virgínia acusar Comey no mês passado de obstruir procedimentos do Congresso. A nomeação atraiu imediatamente a atenção do presidente Donald Trump, que, obcecado pelo ex-diretor, qualificou Comey como um “policial sujo” e criticou Nachmanoff como um “juiz nomeado pelo corrupto Joe Biden”, celebrando as acusações como “JUSTIÇA PARA A AMÉRICA”.

Apesar do barulho político, advogados que conhecem Nachmanoff afirmam que ele dificilmente se deixará influenciar. “Independentemente de suas convicções pessoais, acredito que elas não entrarão na condução do julgamento”, afirmou Nina Ginsberg, advogada de defesa com longa experiência na Virgínia. “Ele confia tanto em sua capacidade de julgar de forma imparcial que não creio que se deixará influenciar pela política ou pela cobertura da mídia.”

Com 57 anos, Nachmanoff chegou à magistratura após mais de uma década atuando como principal defensor público federal no Distrito Leste da Virgínia. Durante esse período, defendeu com sucesso um caso que chegou à Suprema Corte e contribuiu para reduzir disparidades raciais nas sentenças relacionadas ao crack de cocaína. Ele também atuou por seis anos como juiz magistrado em casos politicamente sensíveis. Em 2019, presidiu as primeiras aparições de Lev Parnas e Igor Fruman, associados do aliado do ex-presidente Trump, Rudy Giuliani, concedendo-lhes liberdade mediante fiança de US$ 1 milhão. Mais recentemente, recusou-se a bloquear a demissão de um médico do Pentágono, alvo de aliados de Trump por conta do mandado de vacinação contra a COVID-19.

Advogados ressaltam que Nachmanoff mantém a equidade e o rigor constitucional na condução dos processos. “Defensores públicos federais são renomados por sua fidelidade à Constituição e ao devido processo legal”, destacou Lisa Wayne, diretora executiva da Associação Nacional dos Advogados de Defesa Criminal. Para ela, a atuação do juiz é um importante contrapeso contra a aparência de ataques partidários.

James Comey foi acusado no final do mês passado por mentir ao Congresso. Dias antes da acusação, Trump chegou a pressionar a procuradora-geral Pam Bondi para que processasse o ex-diretor do FBI e outros adversários políticos. Mesmo ciente do contexto político, Comey expressou confiança no sistema judiciário em um vídeo: “Meu coração está partido pelo Departamento de Justiça, mas tenho grande confiança no sistema judiciário federal, e sou inocente. Então, que tenhamos um julgamento.”

A disputa entre Trump e Comey vem se acumulando há anos. Em 2017, poucos meses após o início de seu primeiro mandato, Trump demitiu Comey enquanto o FBI investigava a interferência russa nas eleições de 2016. Desde então, o ex-presidente tem repetidamente exigido o processamento de Comey, chegando a pressionar publicamente a procuradora-geral nos dias que antecederam a acusação.

Para os advogados que já trabalharam com Nachmanoff, esse tipo de pressão política dificilmente afetará sua atuação. A longa trajetória do juiz, marcada por independência e rigor constitucional, reforça a confiança de que o caso será conduzido com imparcialidade e respeito ao devido processo legal.


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