Em seu relatório de 2024, a Comissão dos EUA sobre Liberdade Religiosa Internacional destacou ataques direcionados tanto a cristãos quanto a muçulmanos na Nigéria, qualificando-os de violações sistemáticas da liberdade religiosa.

LAGOS, Nigéria (AP) – O senador norte-americano Ted Cruz tem tentado mobilizar outros cristãos evangélicos e pressionar o Congresso para que a Nigéria seja designada como um país de preocupação especial devido a “severas violações” da liberdade religiosa, com alegações infundadas de “massacre em massa de cristãos”. Tais afirmações foram rejeitadas pelo governo nigeriano, que as classificou como falsas.
O senador, membro republicano do Comitê de Relações Exteriores do Senado, propõe que a Nigéria passe a integrar a lista de países – que já inclui Paquistão, Afeganistão e China – passíveis de sanções por parte dos EUA. Um projeto de lei, apresentado no mês passado, aguarda análise no Senado, mas não há garantias de aprovação.
Ambos, Cristãos e Muçulmanos, São Vítimas
A população de 220 milhões de habitantes da Nigéria está quase igualmente dividida entre cristãos e muçulmanos. O país enfrenta há muito tempo problemas de segurança oriundos de diversas frentes, incluindo o grupo extremista Boko Haram, que busca impor sua interpretação radical da lei islâmica – ou até mesmo atacar muçulmanos que não se enquadram em seus critérios.
Os ataques possuem motivos variados. Enquanto alguns são motivados por razões religiosas, atingindo tanto cristãos quanto muçulmanos, outros derivam de conflitos entre agricultores e pastores, rivalidades comunitárias, grupos separatistas e disputas étnicas. Embora os cristãos sejam frequentemente citados entre os alvos, analistas apontam que, na maioria dos ataques no norte, onde a população é predominantemente muçulmana, as vítimas dos grupos armados são majoritariamente muçulmanas.
Ambas as comunidades, em momentos distintos, acusaram o outro lado de “genocídio” durante ataques motivados por questões religiosas. Tais incidentes ocorrem especialmente nas regiões centro-norte e noroeste, onde o conflito entre comunidades agrícolas – predominantemente cristãs – e pastores Fulani – em sua maioria muçulmanos – se agrava. Joseph Hayab, ex-presidente da Associação Cristã da Nigéria no estado de Kaduna, uma das áreas mais atingidas pela insegurança, contestou as alegações de “genocídio cristão”, ressaltando que, embora milhares de cristãos tenham sido mortos ao longo dos anos, “a situação é melhor do que era anteriormente” – mas que cada vida perdida é lamentável.

Resposta do Governo Nigeriano
O governo da Nigéria rejeitou veementemente as alegações do senador Cruz. “Não há tentativa sistemática ou intencional, seja por parte do governo nigeriano ou de qualquer grupo sério, para visar uma religião específica”, afirmou o ministro da Informação, Idris Muhammed, à Associated Press.
Dados dos Ataques
De acordo com dados do programa de Dados de Localização e Eventos de Conflito Armada (ACLED), foram registradas 20.409 mortes em 11.862 ataques contra civis na Nigéria entre janeiro de 2020 e setembro deste ano. Dentre esses incidentes, 385 ataques foram identificados como “eventos direcionados contra cristãos”, onde a identidade cristã da vítima foi considerada um fator – resultando em 317 mortes. No mesmo período, foram contabilizadas 196 ocorrências que ocasionaram 417 mortes entre muçulmanos.
Ladd Serwat, analista sênior para a África da ACLED, apontou que, apesar da religião ser um fator na crise de segurança da Nigéria, as grandes dimensões do país e sua diversidade geográfica impedem que a violência seja atribuída exclusivamente a questões religiosas.
As Alegações Não Correspondem à Definição de Genocídio
Especialistas afirmam que a complexa dinâmica de segurança na Nigéria não se enquadra na definição legal de genocídio, conforme a convenção da ONU, que define esse crime como atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Olajumoke Ayandele, professor assistente no Centro de Assuntos Globais da New York University, destacou que “o que se observa são assassinatos em massa – não ataques direcionados a um grupo específico. A disseminação de discursos que acusem genocídio pode, inclusive, agravar a situação, pois todos ficarão em alerta.”
Chidi Odinkalu, professor na Fletcher School of Law and Diplomacy da Tufts University e ex-presidente da Comissão Nacional dos Direitos Humanos da Nigéria, ressaltou que, independentemente das discussões, as autoridades nigerianas precisam tomar medidas para enfrentar a violência desenfreada que assola o país.

Dom Montenegro é escritor e pesquisador de espiritualidade, criador do blog Encontro Espiritual.
Promove diálogo acolhedor entre tradições, com reflexões, orações e práticas para o dia a dia.
Sua missão é inspirar fé, paz interior e compaixão, respeitando a diversidade religiosa.


Deixe um comentário